Assim que peguei o metrô pela primeira vez em Paris, me deparei com este pôster. É uma propaganda do governo da região de Île-de-France (o "estado" onde fica Paris), sobre os serviços/direito de sexualidade, contracepção e aborto. Traduzo:
Sexualidade
Contracepção
Aborto
um direito, minha escolha, nossa liberdade
Algum tempo antes de viajar, achei que poderia talvez ter acontecido de uma pílula do dia seguinte não dar certo. Como eu sabia que viria para a França, havia me informado sobre as condições para se abortar aqui. Eu, brasileira, acostumada a ver o aborto tratado como um "escândalo", "tabu", causa de morte, etc. fiquei positivamente surpresa ao descobrir que, na França, para que QUALQUER mulher faça um aborto, independentemente da idade, a única autorização necessária é a da própria mulher. As francesas são donas de seus próprios corpos. Eu, no Brasil, ainda sou tratada como impotente sobre meu próprio corpo.
Enfim, eu chegara na França. Sem precisar de aborto pois a pílula (alívio) havia funcionado. Comentei do cartaz com uma amiga francesa que passa por vários deles todos os dias e não os havia sequer notado. Óbvio; pra ela é absolutamente normal. É um direito da mulher, de decidir sobre o próprio corpo, e ponto. Ainda me acrescentou que se o argumento religioso (ex.: "é uma vida", "é assassinato", "Deus não aceita", "não é natural", entre tantos outros) é utilizado na esfera pública por aqui, o utilizador se queima absolutamente. Para os franceses, cada um tem a sua liberdade de fé e religião - mas ela jamais deve se sobrepor às decisões do Estado. É um Estado laico de verdade.
A escola laica foi apontada pela minha amiga como a principal causa da compreensão nacional sobre o que significa o aborto para as mulheres. O direito sobre o próprio corpo. Uma outra amiga, brasileira, ficou igualmente maravilhada ao ver que a propaganda acima não era de uma ONG ou movimento feminista, mas do governo!!!
Quando publiquei esta foto no meu
blog de viagem, comecei a buscar um link em algum dos meus outros blogs que falasse sobre aborto. E vi que não havia nada. Percebi que no final das contas eu não tinha um texto sequer falando sobre aborto - no Brasil, ou em qualquer lugar do mundo. Por isto fiz este post. Precisava registrar esta impressão. Quero que minhas filhas cresçam livres como as francesas e me motivo a cada dia para continuar numa luta - que não é "bolinho" - pela legalização do aborto / Estado laico no Brasil.
A caminho, prometo um post mais detalhado sobre meus motivos para ser a favor do aborto para quem nunca entrou muito nesta discussão e gostaria de entender melhor.
Por enquanto, eu fico por aqui, embasbacada com toda essa liberdade que não me pertence.
Ainda.